por Psicanalista Fernanda Daniela
À primeira vista, “Chaves” parece apenas um seriado simples sobre uma vila pobre e divertida.
Mas por trás das risadas, há um retrato sensível da alma humana — dos nossos vazios, da nossa busca por amor e da infância que nunca nos deixa.
Chaves vive com fome.
Mas sua fome é mais do que física — é a fome de ser visto, acolhido, amado.
Ele mora num barril, abrigo e prisão ao mesmo tempo.
Um esconderijo que simboliza o útero perdido, o desejo de voltar ao lugar onde tudo parecia seguro.
Cada personagem carrega um pedaço de nós:
Seu Madruga, o cansaço da vida adulta e o peso da culpa.
Dona Florinda, o moralismo que tenta esconder a própria dor.
Quico, o narcisismo infantil que acredita que o amor se compra com brinquedos.
Chiquinha, a esperteza que surge da carência.
E o Professor Girafales, o ideal que sempre chega, mas nunca permanece.
A vila é o nosso inconsciente coletivo — um espaço onde todos vivem suas faltas e, ainda assim, continuam buscando o afeto um do outro.
Um lugar onde o abandono se transforma em vínculo e o sofrimento em riso.
O humor em “Chaves” é uma forma de sublimação.
É o riso que protege da dor.
É o inconsciente dizendo: “é melhor rir do que desistir.”
E mesmo quando tudo se repete — as brigas, os tapas, as confusões — há algo profundamente humano nisso.
A repetição é a tentativa do sujeito de dar novo sentido ao trauma.
Cada episódio é uma pequena tentativa de cura, um ensaio da vida.
“Chaves” nos lembra que, apesar de nossas faltas, seguimos procurando amor.
Que mesmo feridos, ainda buscamos o outro.
E que, talvez, a vila represente o que todos temos dentro de nós:
um pequeno mundo de dores, sonhos e esperança,
onde, entre tapas e abraços, continuamos tentando ser amados.


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