422091292-anitta-instagram

Análise Psicanalítica – Anitta

Por Psicanalista Fernanda Daniela

A trajetória pública de Anitta revela uma construção subjetiva marcada por determinação, reinvenção e pela busca constante de autonomia sobre sua própria narrativa. Do ponto de vista psicanalítico, é possível observar alguns eixos importantes:

1. Identidade e Construção de Imagem

Anitta apresenta um movimento contínuo de elaboração de sua identidade, transitando entre múltiplas versões de si — Larissa e Anitta, artista e mulher comum, potência e vulnerabilidade.

Essa duplicidade pode ser compreendida como uma tentativa de dar contorno ao Eu frente às demandas intensas da vida pública.

Freud nos lembra que o Eu é constantemente tensionado pelo ideal do ego e pelas exigências externas. Em Anitta, esse tensionamento aparece na busca por controle da própria imagem, como forma de proteger-se de projeções e expectativas sociais.

2. Sexualidade e Autonomia do Corpo

A artista faz uso consciente da sexualidade como expressão de liberdade.

Do ponto de vista psicanalítico, há aqui um movimento de apropriação simbólica do corpo, contrapondo-se a uma cultura que, historicamente, tenta controlar o desejo feminino.

Seu discurso e performance sugerem a recusa a ocupar o lugar passivo ou culpabilizado que muitas mulheres internalizam. Ela se coloca como sujeito do desejo, e não objeto dele — uma posição ainda rara na cena midiática brasileira.

3. Trabalho, Ambição e Super eu

Sua relação intensa com o trabalho e o desejo de expansão internacional revelam um Super eu exigente, impulsionando-a à constante superação.

Ao mesmo tempo, essa exigência pode gerar desgastes emocionais, que ela já compartilhou publicamente.

Essa entrega absoluta ao trabalho pode ser compreendida como uma via de sustentação narcísica: o reconhecimento externo funciona como motor e também como válvula de alívio para angústias internas.

4. Vulnerabilidade, Ansiedade e o Sem Medo de Dizer

Em vários momentos, Anitta expõe suas fragilidades — sejam de saúde, emocionais ou relacionais.

Na psicanálise, essa abertura pode ser lida como um movimento de contato com o Real, com aquilo que escapa ao controle da persona pública.

Ao expor vulnerabilidades, ela rompe com a lógica do “Eu ideal perfeito”, aproximando-se de uma postura mais autêntica, onde a falha não é negada, mas integrada ao processo de subjetivação.

5. Relações, Rupturas e o Direito ao Próprio Caminho

Os ciclos de relações e rupturas na vida de Anitta mostram uma marca importante: a necessidade de liberdade.

Há nela um impulso de não se aprisionar ao desejo do outro, o que pode estar ligado a vivências infantis de responsabilidade precoce, esforço para sobreviver e construir autonomia.

Essa dinâmica pode gerar um movimento constante de aproximação e afastamento, típico de sujeitos que desejam vínculo, mas temem perder sua independência.

Conclusão

Anitta representa, na cena contemporânea, uma subjetividade que não teme se reinventar. Do ponto de vista psicanalítico, ela encarna o conflito entre:

• o desejo de ser ela mesma,

• as exigências externas,

• e a necessidade de preservar sua identidade do olhar invasivo do público.

Sua trajetória evidencia uma busca constante de sentido, lugar e liberdade — movimento profundamente humano, e que ecoa na vida de muitas mulheres que tentam conciliar desejo próprio e demandas sociais.